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Autor de massacre na Nova Zelândia, era de extrema direita e se definia como “branco normal”

Foto: Reprodução

Brenton Tarrant, o australiano que planeou o ataque em duas mesquitas na Nova Zelândia, no qual matou 49 pessoas e feriu outras 40, tinha tudo planeado ponto por ponto: o que queria fazer, como queria fazer, a forma como seria visto e como desejava que fosse lido.

Para isso, preparou tudo durante dois anos, escreveu um manifesto em que explica quem é, de onde vem e o que o motivou. Pelo meio, fez com que o mundo inteiro visse o que fez, ao filmar em direto para a internet a invasão dos dois espaços religiosos. E ainda teve tempo para publicar fotos no Twitter, com as armas que usou, e que entretanto foram apagadas.

Num manifesto de 74 páginas, sob o título “A grande mudança: Rumo a uma nova sociedade”, em que descreve as razões do ataque, Brenton Tarrant define-se como “um homem branco comum, de 28 anos”, que quer criar um “clima de medo” e “incitar à violência”.

“Escolhi armas de fogo pelo efeito que teria no discurso da sociedade, pela cobertura mediática que proporciona e pelo efeito que pode ter na política dos Estados Unidos e, portanto, na situação política do mundo”, escreveu.

A internet: a grande evangelizadora

Apesar de a polícia já ter detido mais três suspeitos, Brenton garante que atuou sozinho, e que a internet foi a sua fonte de inspiração. “Não se encontra a verdade em mais nenhum lugar”, garante.

Diz que nasceu na Austrália, no seio de “uma família da classe trabalhadora de baixos rendimentos”. Os antepassados, segundo revela, são de origem escocesa, irlandesa e inglesa.

Enfatiza que não foi influenciado por familiares ou pelos amigos, chamando-os de “típicos australianos, apáticos e, na maior parte, apolíticos, que apenas mostram verdadeiro interesse por questões relacionadas com os direitos animais, ambientais e fiscais”.

No manifesto, lido pela SBS News e que, entretanto, foi apagado da internet, afirma que chegou à Nova Zelândia “para viver temporariamente enquanto planeava [o ataque] e treinava”, mas depois decidiu realizá-lo naquele país. Explica também que começou a arquitetar o ataque há dois anos.

O autor, que se define como reservado e introvertido, não menciona quanto tempo ou onde ele morou na Austrália, mas os média locais estão a relatar que cresceu em Grafton, no estado da Nova Gales do Sul.

Ódio, ódio e ainda mais ódio

No documento, que escreveu num modelo de perguntas e respostas, Brenton diz que decidiu realizar o ataque para vingar “milhares de mortes causadas por invasores estrangeiros”.

O ex-analista de política de inteligência e defesa, Paul G Buchanan, citado pela SBS News, disse que o massacre é “um caso clássico de extrema direita e de terrorismo de direita”.

Buchanan diz que a retórica do australiano lembra a do terrorista norueguês Anders Behring Breivik. O próprio Brenton sugere um breve contacto com assassino em série, da ilha de Utoya, e que este lhe deu a bênção para o ataque.

Do normal ao anormal

Num registo autobiográfico, Tarrant diz que teve uma infância normal com pouco interesse em estudar e que não frequentou a universidade. O australiano de 28 anos diz que trabalhou com Bitconnect, operadora de criptomoedas, e com esse dinheiro teve depois tempo para viajar.

Mais recentemente trabalhou num “part-time num kebab”. Há também relatos que tenha sido “personnal trainner”

O homem que orquestrou o ataque na Nova Zelândia, afirma que com esta ação quis marcar uma posição do seu povo em relação à imigração e à queda das taxas de natalidade ocidentais.

Tarrant diz que está a vingar os ataques terroristas e a “escravidão … por escravos islâmicos”, e que com esta ação quer “incitar a violência e intimidar diretamente os imigrantes para que deixem os países ocidentais”.

Depois revela que o ataque terrorista em Estocolmo em 2017 lhe mudou a vida, e espoletou a radicalização. Na altura, um atacante num camião atropelou cinco pessoas. Brenton revela ainda que teve como objetivo alcançar uma vingança especial para uma das vítimas, uma menina parcialmente surda de 12 anos, Ebba Akerlund.

O atacante aceita que as ações que levou a cabo são “terroristas” e “racistas”, e desvenda a motivação de escolher a Nova Zelândia para o ataque: quis mostrar que “nenhum lugar do mundo era seguro”, e escolheu realizar a carnificina nas mesquitas depois de visitá-las.

O homem de 28 anos mencionou que queria atingir uma terceira mesquita – uma igreja convertida em Ashburton -, mas pode não conseguiu.

Um nacionalista-fascista

Berton Tarrant escreve também que não entende o porquê de a diversidade cultural ser vista como uma mais-valia para as sociedades ocidentais, defendendo que é o “nacionalismo racial que nos dá força”. E conclui que a radicalização do Ocidente é inevitável.

O manifesto repete ainda várias vezes a ideia de que os migrantes “estão a superar culturalmente os europeus”.

Ele nomeia também inimigos de grande renome que quer ver assassinados como a chanceler alemã Merkel, o presidente turco Erdogan, e o presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan. E estimula os seus seguidores a assassinarem empresários que sejam “anti-brancos” e os traficantes de droga, e na lista de ódios acrescenta as ONG que apelida de “traidores”.

No manifesto, escrito antes do ataque, afirmava que esperava sobreviver ao incidente, mas sublinhava que “a morte é certa”. Aí declara que o “valor da vida” é medido pelas “ações durante o processo” – e estimula os seguidores a “abraçarem a infâmia … até que a vitória seja alcançada”.

Publicado originalmente na Rádio Renascença