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Professor conta que precisa negociar notas com alunos por causa do tráfico de drogas

Um professor, que preferiu não ter a identidade divulgada, contou que precisa negociar notas com alunos por causa da presença do tráfico de drogas na escola em que trabalha, em Goiânia. Segundo ele, os educadores são vítimas de ameaças se não “cooperarem”. Além dele, a mãe de um estudante também denuncia a situação que viveu com o filho, que foi abordado por traficantes para ser “olheiro”.

“‘Fica na sua, fica tranquilo, eu faço a sua hora, eu faço as suas notas’. A gente tem que conviver com isso. Chega um momento que você tem que fazer uma opção, de conviver ou não. Se você bater de frente você é ameaçado, se você bater de frente eles arranham o carro”, contou o educador.

A Secretaria de Estado da Educação (Seduc) informou que pede o reforço no policiamento e que está elaborando um “protocolo de segurança escolar” para ajudar os professores a enfrentar problemas como esses nas salas de aula.

A mãe de um estudante disse que tirou ele da escola depois que percebeu a presença tão marcante do tráfico de drogas no local. Segundo ela, o garoto recebeu uma proposta para ser “olheiro” de traficantes e contou a ela.

“Ele chegou ao ponto de me dizer que foi oferecido um valor por dia, pra ele ser um tal de ‘olheiro’. E quando eu vi ele estava fazendo cálculos — ‘ah, daria pra comprar meu celular em não sei quanto tempo’ — eu disse: ‘Deus me livre!’”, contou.

Assustada, ela procurou a escola e disse que ficou ainda mais espantada com o que ouviu dos responsáveis pelo colégio. “Eu vi uma omissão às claras de todos. Ninguém reagiu, ninguém falou nada e me falaram: ‘É muito difícil, a gente não tem o que fazer’”, afirma.

Alunos são flagrados passando cigarro de mão em mão perto de escola estadual — Foto: Reprodução/TV Anhanguera

Imagens feitas com exclusividade pela TV Anhanguera mostram estudantes passando drogas de mão em mão, ainda com uniformes, na porta de colégios estaduais em Goiânia. Em alguns pontos é possível ver que alguns vão embora e logo outros chegam e o consumo de drogas continua, como um ponto.

O presidente do Conselho de Segurança Escolar José Eduardo Barbieri disse que a presença de traficantes está cada vez mais presente no ambiente. “A escola passa a ser um espaço de disputa de poder das facções do tráfico. As crianças e os adolescentes passam a ser o público alvo deles”, avaliou.

A mesma análise é feita pelo subcomandante do Batalhão Escolar, Sandro Resende. Segundo ele, os estudantes são aliciados com propostas tentadoras por pessoas prontas para levá-los ao caminho do tráfico.

“Nós estamos perdendo esses indivíduos para essas pessoas que estão preparadas e organizadas para cooptá-los. E nós não estamos”, afirmou.

O major da Polícia Militar Sandro Resende disse que defende punições adequadas para esses adolescentes.

“Percebe-se uma permissividade na escola. Aquele aluno é recrutado porque criou-se o estigma de que o menor não vai ser responsabilizado. Esse aluno tem que responder pelo ato infracional de usar a droga, de portar a droga no ambiente escolar”, ponderou.

Na Delegacia de Apuração de Atos Infracionais (Depai), o delegado Luiz Gonzaga afirmou que cerca de 15 adolescentes são apreendidos por mês em Goiânia por algum envolvimento com o tráfico de drogas.

“Muitas vezes eles pensam no dinheiro fácil, só que esse dinheiro fácil tem consequências muito graves. A gente se depara com muitos casos de adolescentes que já morreram ali na briga, disputa territorial de tráfico de drogas ou que acabam em centros de internação”, disse.