Jean Wyllys: Tive muitas vezes vontade de partir para cima de Bolsonaro

por Naief Queiroz
Jean Wyllys: Tive muitas vezes vontade de partir para cima de Bolsonaro

“A política é a arte do possível, mas tudo tem limite. Recuso-me a estabelecer um diálogo com adversários desonestos intelectualmente, ou apologistas da tortura, do estupro, do ódio aos quilombolas, aos indígenas, aos LGBTs, e que me difamam e caluniam”, escreve Jean Wyllys, ex-deputado e hoje colega de blog aqui no Uol, em “O Que Será – A História de um Defensor dos Direitos Humanos”, livro de memórias escrito em parceria com a jornalista Adriana Abujamra. A previsão é que a obra, editada pela Objetiva, chegue aos leitores no final de julho.

Ao longo da carreira como parlamentar, um dos momentos em que Jean viu seus colegas ultrapassarem o limite por ele traçado foi durante a votação na Câmara do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Depois de defender a ex-presidente, Jean voltou para o meio do plenário. Enquanto tentava abrir espaço entre os deputados, Jair Bolsonaro se aproximou. “Com um sorriso no rosto, andando na ponta dos pés, agitando as mãos e fazendo uma imitação grotesca de trejeitos femininos, provocou mais uma vez: ‘Tchau, querida! Tchau, amor!'”, relata Jean.

Naquele momento, pensou na crescente onda de violência que o cercava e em todos os desaforos que ouvira durante seis anos de mandato. Mais do que isso, recordou de como a homofobia lhe machucou ao longo da vida. “Lembrei-me do primeiro ‘viado!’ que ouvi, aos seis anos. Do primeiro parente que sugeriu: ‘Toma jeito de homem!’. Das surras de cinta e cipó que levei de meu pai. Dos xingamentos dos colegas de escola e de todos os que vieram depois. Bicha louca. Maricas. Baiacu. Fruta. Baitola. Cu. Bambi. Fresco. Boneca. Ré no quibe. Queima-rosca. Viado. Toda a dor acumulada veio à tona como uma torrente incontrolável”, relata na obra. O desfecho desta cena todo mundo conhece: Jean Wyllys.

No livro, o ex-deputado conta que Bolsonaro foi alguém a ele hostil desde que pisou pela primeira vez no prédio Congresso. “Sempre que cruzava comigo nos corredores, na cafeteria, no banheiro…. era um gracejo a cada encontro. Nas comissões em que ambos atuávamos, costumava sentar na fileira atrás de mim para me provocar, fora a difamação sistemática nas redes sociais, em que me associava à prática de pedofilia”. De certa forma, aquela cusparada também era uma maneira de extravasar. “Para ser sincero, tive muitas vezes vontade de partir para cima, mas nunca levantei um dedo, nem para ele nem para ninguém. Nem mesmo quando era menino em Alagoinhas e levei um soco no meio da rua a troco de nada, simplesmente porque um moleque não gostou do que chamou de meu ‘jeitinho'”.

Com uma escrita de progressão linear, Jean começa “O Que Será” relembrando sua infância. Vivia numa casa de taipa em Alagoinhas, interior da Bahia, e antes de completar um ano teve uma desidratação tão forte que seu pai correu para providenciar um caixão para o bebê. Conforme crescia, pensava em maneiras de tirar a família da miséria. A universidade – viria a se formar em Jornalismo – estava no seu horizonte, mas a mãe o desacreditava: “Esse negócio de faculdade não é para você, é para filho de rico”. Também resgata sua participação no programa Big Brother Brasil em 2005, responsável por lhe projetar nacionalmente. Passa de maneira rápida por esse momento tão importante da sua vida, mas não deixa de fazer alguma análise relacionada à política: “A esquerda se diz defensora dos pobres, mas se revela elitista e arrogante ao desprezar programas de televisão que as classes mais populares consomem”.

Mais do que um livro de memórias, “O Que Será” é um manifesto de Jean contra a homofobia pautado por tudo o que o ex-deputado viveu. Como dito acima, a primeira ofensa veio aos seis anos, quando sequer entendia o que significava a palavra “viado”. A discriminação e os achincalhes ajudaram a forjar a consciência para as batalhas. Ao entrar para a política partidária, já tinha claro quais eram as principais bandeiras a defender. Ao longo da obra, enquanto discorre sobre a história das lutas pelos direitos LGBTs, são muitos os nomes que evoca: João Silvério Trevisan, Luiz Mott, Aguinaldo Silva, James Green… Também reconhece a importância de personalidades como Laerte, Daniela Mercury, Fernanda Gentil e o skatista Brian Anderson declararem publicamente suas orientações sexuais.

“A chegada ao Congresso de uma bicha nordestina e parda, vinda da pobreza e com estofo intelectual, foi vista como uma afronta. Preconceitos arraigados vieram à tona. A confraria de homens brancos, ricos e heterossexuais me elegeu como alvo preferencial. Atacavam não apenas minhas ideias, mas também a mim”, recorda. Após as eleições de 2014, quando conseguiu a reeleição, que passou a notar a grande ascensão do conservadorismo e o acirramento dos ânimos.

Junto com a onda conservadora veio a truculência. Se antes Jean recebia ofensas e intimidações sem lastro, aos poucos as ameaças pareciam ficar mais perigosas. “Em 2017, recebi um e-mail de um sujeito que se dizia fã de Bolsonaro, ameaçando estuprar minhas irmãs, matar minha família e me enviar as cabeças. Parecia bem informado, pois indicou o endereço de Mainha e sabia a profissão de meus irmãos”. Seguranças passaram a lhe acompanhar por todos os cantos. Para se preservar, Jean tinha que evitar muitos lugares e passou a sentir que vivia como que num cárcere privado, mesmo sem ter cometido crime algum.

“Além das ameaças de morte, eu estava sendo destruído por uma onda de fake news que atingiu o auge durante a campanha de Bolsonaro para a presidência. Fui transformado num pária pelos eleitores desse maldito. As pessoas acreditavam nas mentiras que recebiam pelo WhatsApp, especialmente as que associavam minha homossexualidade à pedofilia. Uma vez, Mainha estava fazendo compras em um supermercado em Alagoinhas quando um homem se aproximou gritando que ela era mãe de um pedófilo”.

O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes em março do ano passado foi uma prova cabal de que as coisas andavam mesmo absurdamente perigosas. “O medo de ser assassinado já existia, mas naquele momento algo se estraçalhou dentro de mim, não conseguia pensar em política da mesma maneira”. Durante a campanha eleitoral de 2018, cogitou desistir da carreira pública. Seguiu adiante com sua candidatura, mas, após conseguir a terceira eleição consecutiva, deu ouvidos a conselhos de Dilma e de José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai e um dos grandes símbolos da esquerda no mundo atual. “Cuida-te, rapaz. Mártires não são heróis”, disse ele. “Acho que o caldo vai engrossar, você é importante que você se mantenha vivo”, recomendou ela – isso segundo o relato presente no livro.

No começo deste ano, Jean renunciou ao cargo de deputado federal (quem assumiu em seu lugar foi David Miranda), viajou para a Espanha e atualmente vive em Berlim.

Leia também