Mangueira troca polêmica por reflexão ao apresentar as várias faces de Jesus

por Naief Queiroz
Mangueira troca polêmica por reflexão ao apresentar as várias faces de Jesus

 A polêmica do pré-carnaval foi substituída por olhares admirados quando a Estação Primeira de Mangueira entrou na Avenida para contar a vida de Cristo. Como prometido, foram várias faces de Jesus representadas da comissão de frente ao último carro, passando pela rainha de bateria, Evelyn Bastos. Numa sucessão de cenas fortes, o carro “O Calvário” tinha um Jesus negro crucificado que alcançava cerca de 20 metros de altura. No mesmo carro, pessoas de diversos perfis, como negros, mulheres e LGBTs vinham crucificadas.

– Acho que as pessoas entenderam o recado. No meio da polêmica, não tinha nada no desfile que eu temesse. Não sou uma pessoa de ter medo. E vi as pessoas surpresas com o desfile – disse o carnavalesco Leandro Vieira, cansado depois de ter ajudado o Império Serrano na sexta e ter sido o carnavalesco da Imperatriz no sábabo.

Numa das cenas mais impactantes, a rainha de bateria Evelyn Bastos era um Cristo com uma coroa de espinhos:

– Estou emocionada com a reação do público. É um misto de alívio e dever comprido. Mas foi uma das coisas mais difíceis que já precisei enfrentar: atravessar uma Sapucaí inteira sem sambar foi inédito pra mim – disse ela.

O administrador Luiz Eduardo Fontes se encantou com a maneira como Evelyn Bastos encarnou o personagem:

– Ela está literalmente divina. É emocionante ver a maneira respeitosa que ela está interpretando Jesus. Pra mim é a Rainha das Rainhas. Uma mulher forte e que representa a comunidade da Mangueira divinamente.

Próximo da cabine de rádios, em frente ao Setor 1, no entanto, duas musas conversavam sobre a fantasia de Evelyn Bastos. Indignadas com a fantasia da moça, uma delas esbravejou:

– Que ridícula. Que falta de respeito com Jesus Cristo. Se ela sabe que é polêmico, porque não escolheu representar uma outra figura? Tinha que ser Jesus? Nunca vi uma rainha passar pela Sapucaí assim. Questionadas pela reportagem as duas taparam a identificação que estava pendurada no pescoço e falaram que mantinham a opinião, mas não queriam se expor.

Na comissão de frente, as caixas de som do batidão do funk se transformavam numa cruz, e um dos componentes era o primeiro da escola a representar Jesus, de tênis verde e rosa, sobretudo jeans e pochete dourada. Ao seu lado, funkeiros. Num determinado momento, todos encenam a Santa Ceia. E, logo depois, apareciam policiais que batiam e revistavam os apóstolos e o próprio Jesus.

Na redenção, adereços recriavam uma favela na avenida, e Jesus aparecia com um coração iluminado em meio aos barracos.

– Certamente é um papel muito importante não porque estou sendo destacado, e sim porque estamos dando voz ao favelado. Esse Jesus nasceu no Morro da Mangueira, é um Jesus favelado e anda com negros e indígenas. É um Jesus que está no meio do povo, como o Jesus bíblico. Todos nós integrantes da comissão somos oriundos de comunidade ou subúrbio. Temos caminho de ascensão social e as pessoas que assumiram o poder não querem que o pobre cresça na vida. Então, o recado que vamos dar é para a galera acreditar na força e no poder do povo – disse o dançarino Arthur Barcelos Leal, que representou o Jesus da gente da comissão.

O ator Humberto Carrão também representou Cristo num dos carros:

– Acho legal que a gente aprende que a história de Jesus é uma história branca e se o Leandro (Vieira) achou que tinha que ter um Jesus branco, mas ele quis que esse branco fosse raivoso, revoltado. É importante que a raiva pode fazer evoluir, diferente do ódio, ela pode ser combustível – disse ele.

No carro do Jesus crucificado, a escultura era de um homem negro com o corpo cravejado de balas de fogo. Entre as pessoas “crucificadas”, Alana Monteiro, moradora da Mangueira, explicou o recado que pretendia dar.

– Enquanto estou aqui, milhares de mulheres no mundo estão sendo agredidas e mortas sem terem como pedir socorro. É a mensagem que estou dando aqui – disse ela.

Nas alas, vinham mais personagens crucificados. Uma delas era do bandido morto. Já as baianas eram orixás crucificadas.

– É muito significativo conseguir falar de Jesus e orixás num mesmo desfile, num mundo como o de hoje, de tantos preconceitos e com as religioes de matriz africana abominada por tantas pessoas – disse a baiana Ingrid Gama, que é umbandista.

À frente da escola, um grupo de líderes religiosos de diferentes confissões pediam tolerância.

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