Cloroquina fica quase 180% mais cara em Manaus

por Naief Queiroz
Cloroquina fica quase 180% mais cara em Manaus

Desde a declaração de Trump sobre os “incríveis resultados” do tratamento com cloroquina em pacientes infectados pela Covid-19, em meados de março, o medicamento se tornou um dos mais estudados pela ciência para este fim. Com o aumento na procura e na demanda, os preços aumentaram e pacientes que já faziam tratamento com a medicação estão sendo os maiores prejudicados.

Elaine Garcia, 39 anos, é portadora de Lúpus Eritematoso Sistémico (LES) e faz o uso da hidroxicloroquina há aproximadamente 18 anos. Segundo ela, desde o início da pandemia, o medicamento sumiu da maior parte das farmácias comerciais. “Eu já era acostumada a comprar em farmácias de manipulação, porque a dosagem para o meu tratamento oscila conforme o meu acompanhamento, mas até nelas está difícil achar”, informa.

Ela esclarece que, ainda assim, quando encontram, os preços estão absurdos. “Em abril eu estava comprando por R$ 165  a dosagem que precisava, agora em maio o valor já aumentou para R$ 460. Eu consigo pagar este valor hoje, mas sei que muitas pessoas que também já faziam tratamento anteriormente podem passar por dificuldades”, ressalta.Playvolume00:00/00:40d-emtempoTruvidfullScreen

Nesse contexto, o medicamento ficou 178,8% mais caro em um mês
Nesse contexto, o medicamento ficou 178,8% mais caro em um mês | Foto: Marco Santos

Nesse contexto, o medicamento ficou 178,8% mais caro em um mês. Elaine diz que muitas pessoas não percebem o aumento, mas que aqueles que têm histórico de preço com a cloroquina sabem que esses valores irão ficar insustentáveis para os pacientes crônicos em algum momento.

Kamila Monteiro, 23 anos, também é portadora de LES e faz o uso contínuo do medicamento Hidroxicloroquina há 11 anos. Ela afirma que, devido a pandemia, os preços da medicação se tornaram abusivos e a procura pelo mesmo se torna cada dia mais difícil.

“Estou tendo que encomendar a medicação, pois muitas pessoas estão comprando a cloroquina sem necessidade de uso. Muitos fazem isso mesmo sabendo que existem milhares de pessoas que precisam do remédio todos os dias”, desabafa Kamila.

A automedicação é um risco à saúde e pode trazer grandes danos, afirma Kamila
A automedicação é um risco à saúde e pode trazer grandes danos, afirma Kamila | Foto: Fotoarena

A jovem está sendo tomada de preocupações desde o início da pandemia, pois teme que, em algum momento, não consiga mais encomendar. “Eu preciso dessa medicação e faço um alerta para aqueles que estão usando sem necessidade: a automedicação é um risco à saúde e pode trazer grandes danos. É preciso pensar mais em quem necessita”, salienta.

A assessoria da farmácia de manipulação Artesã esclarece ao EM TEMPO que, as indústrias farmacêuticas não estavam preparadas para uma pandemia e, consequentemente, os estoques não estavam equipados com grandes quantidades de matéria prima. “Nesse sentido, aqueles que têm grande disponibilidade de matéria-prima para a produção de cloroquina estão elevando o valor e isso é repassado para o consumidor. Ficamos à disposição dos fornecedores”, explica.

As farmácias ficam à disposição dos preços deliberados pelos fornecedores
As farmácias ficam à disposição dos preços deliberados pelos fornecedores | Foto: Sumaia Villela/Agência Brasil

A equipe afirma que, muitas farmácias e drogarias estão tendo dificuldades de adquirir justamente pelo preço que o medicamento está sendo vendido pelos consumidores. Além disso, outras medicações também estão sofrendo problemas de escassez nas prateleiras. “Alguns médicos têm aderido a protocolos para Covid-19 conforme estudos com medicamentos como Azitromicina, Oseltamivir, Ivermectina, Vitamina D, Zinco e Vitamina C. Assim, esses produtos começam a faltar também”, atesta.

Diretos do consumidor

O Programa Estadual de Proteção e Orientação do Consumidor (Procon-AM) revelou ao EM TEMPO que tem recebido diversas denúncias sobre o preço da cloroquina nos últimos meses. Nesta semana, inclusive, as equipes do órgão estiveram em uma farmácia de manipulação para verificar os valores e o aumento foi realmente constatado. “No entanto, a gerência apresentou as notas fiscais que comprovam que o medicamento foi adquirido por um preço maior – o que justifica a alta”, afirma.

O medicamento foi adquirido por um preço maior e a alta foi justificada
O medicamento foi adquirido por um preço maior e a alta foi justificada | Foto: Reprodução/Internet

De todo modo, denúncias podem ser repassadas pelas redes sociais do Procon-AM, pelos e-mails duvidasprocon@procon.am.gov.br e fiscalizacaoprocon@procon.am.gov.br, pelos números 0800 092 1512, (92) 3215-4012, 3215-4015, 3215-4009, 99271-5519 (ouvidoria), e pelo site.

Hidroxicloroquina

Com o aparecimento do novo coronavírus e a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em meados de março deste ano, o medicamento se tornou um dos mais estudados pela ciência para este fim. No entanto, até hoje os resultados das pesquisas são controversos.

Algumas apontam para sua eficácia e outros afirmam que, além de não funcionar, o uso do medicamento está associado a graves problemas de saúde. Em geral, os estudos que apontam para uma possível eficácia do tratamento são observacionais – ou seja, não são suficientes para apontar uma associação entre causa e consequência – e pequenos.

Em geral, os estudos que apontam para uma possível eficácia do tratamento são observacionais
Em geral, os estudos que apontam para uma possível eficácia do tratamento são observacionais | Foto: Augustin Marcarian/Reuters

Uma análise feita pelo Centro de Medicina Baseada em Evidências no início de abril concluiu que “Os dados atuais não suportam o uso de hidroxicloroquina para profilaxia ou tratamento de Covid-19. […] Dois ensaios de tratamento com hidroxicloroquina que são de domínio público […] são análises prematuras de ensaios cuja conduta em ambos os casos divergiu dos protocolos de ensaios clínicos. Nem eles, nem três outros ensaios negativos que surgiram desde então, apoiam a visão de que a hidroxicloroquina é eficaz no tratamento de doenças leves da Covid-19.

Outros dois estudos publicados na última semana, os maiores já realizados sobre a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, mostraram que a intervenção não reduz o risco de morte e que o medicamento não é efetivo no tratamento da doença. Por conta desses estudos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda o medicamento como um dos possíveis tratamentos para a Covid-19 neste momento.

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