Cidades do interior do Amazonas sofrem com falta de leitos de UTI

por Naief Queiroz

Quando o novo coronavírus se espalhou por Manaus, ainda em março, o sistema de saúde colapsou com a quantidade de pacientes. Faltavam unidades de terapia intensiva (UTI) para atender todos os infectados. Agora, enquanto a capital amazonense parece ter superado o pico da doença, o interior do Amazonas se tornou o novo epicentro do vírus. Mas, sem contar Manaus, nenhum dos outros 61 municípios amazonenses possuem UTI.

No dia 19 de maio, pela primeira vez, os números de infectados pelo coronavírus no interior do Amazonas ultrapassaram a capital. Àquela data, a Fundação de Vigilância em Saúde somou 11.081 casos da Covid-19 em 59 municípios. Em Manaus, o número havia sido de 11.051. A discreta diferença logo se tornou um abismo.

Dos 67.267 casos confirmados da doença no Amazonas até a última quinta-feira (25), 26.483 são de Manaus (39,37%) e 40.784 do interior do Estado (60,63%).

Aviões são utilizados para transportar doentes, mas há fila
Aviões são utilizados para transportar doentes, mas há fila | Foto: Divulgação/Susam

Por falta de leitos de alta complexidade, Berenice Cardoso viu um tio morrer com suspeita de coronavírus. O idoso indígena de 84 anos morava na Aldeia Kwataq, em Nova Olinda do Norte e era do povo munduruku.

A amazonense conta que seu tio, Raimundo Cardoso, começou a manifestar os sinais da Covid-19 ainda no dia 14 de maio. Ele foi internado no Hospital Galo Manoel Ibanez, o único de Nova Olinda do Norte.

Como não há unidade de terapia intensiva (UTI) no hospital onde ele estava internado, para sobreviver, Raimundo precisava ser transferido para Manaus.

Idoso foi atendido em hospital de Nova Olinda do Norte, mas caso era grave
Idoso foi atendido em hospital de Nova Olinda do Norte, mas caso era grave | Foto: Reprodução

Familiares foram informados, no entanto, que a transferência não poderia ser feita porque não havia vaga no hospital de campanha em Manaus e faltava avião com UTI que pudesse transportar o idoso. Raimundo faleceu sem saber se conseguiria ser tratado.

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) lamentou a morte do indígena e informou que ele era o quarto da fila para ser transferido para Manaus. A viagem para a capital estava prevista para o dia 29 de maio, às 8h, no entanto, Raimundo faleceu horas antes.

Protestos

Manifestantes saíram às ruas de São Gabriel da Cachoeira para pedir hospitais de campanha
Manifestantes saíram às ruas de São Gabriel da Cachoeira para pedir hospitais de campanha | Foto: Paulo Desana/Amazônia Real

Em outro município do Amazonas, São Gabriel da Cachoeira, já ocorreu até protesto para pedir hospital de campanha. Uma reportagem da agência Amazônia Real mostrou que moradores saíram às ruas do município porque há apenas um hospital administrado pelo Exército, mas sem leitos de UTI.

UTI como política de Estado

Em 2020, o orçamento para a saúde no Amazonas é de R$ 2,6 bilhões. A quantia foi aprovada no ano passado, pela Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM). À época do anúncio, o ex-titular da Susam, Rodrigo Tobias, citou as prioridades no investimento para 2020.

“Vamos aplicar esse investimento, principalmente no hospital Francisca Mendes, maternidades e na ampliação de unidades de Pronto Atendimento, como as UPAs de Tabatinga e de Itacoatiara”, afirmou ele, citando unidades hospitalares de Manaus e do interior.

Casos de Covid-19 reduziram em Manaus, mas ainda crescem no interior do Amazonas
Casos de Covid-19 reduziram em Manaus, mas ainda crescem no interior do Amazonas | Foto: Divulgação/Susam

Dentre outras citações de investimentos, o ex-titular da Susam nada citou sobre possíveis implantações de UTI no interior. Até o início da pandemia, em março, os municípios ainda estavam sem os leitos.

A criação de UTI é responsabilidade do Governo do Estado, explica Januário Neto, presidente do Conselho de Secretários Municipais e Saúde do Amazonas (Cosems-AM). Já a atenção básica e a média complexidade dizem respeito às prefeituras.

“O Estado tem erros históricos de mais de quarenta anos em relação à implantação de UTI nos interiores, sobretudo nos nove municípios considerados polos. Porque, para você montar uma UTI, você não precisa só dos equipamentos. É necessária uma equipe treinada e, sobretudo, um médico intensivista, primordial nesses leitos”, explica ele.

No final de março, o Governo do Amazonas enviou R$ 23,4 milhões aos municípios do interior para investimento nas redes de assistência básica hospitalar. Os recursos fazem parte do Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas (FTI).

Geografia impede criação de UTI?

Mapa da geografia do Amazonas
Mapa da geografia do Amazonas | Foto: Divulgação/MapPoint

O Amazonas é o maior do Brasil em extensão territorial. Segundo o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) o Estado possui 4,144 milhões de habitantes. Destes, mais da metade (52%) estão em Manaus. O restante da população está disperso em 61 municípios do interior.

A palavra ‘dispersa’ é uma das que define o Amazonas, segundo Marcos Castro, geógrafo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

“Trata-se de um Estado que tem uma dinâmica geográfica muito dilatada. Nós não temos uma rede expressiva de estradas para ligar as cidades. Tudo é concentrado na metrópole Manaus, como pouco mais da metade da população, a maior parte dos recursos e outras questões. Então temos o Estado agigantado e, ao mesmo tempo, concentrado na sua metrópole”, define o geógrafo.

Apesar das dificuldades no transporte, o profissional garante que a geografia do Amazonas permite a implantação e manutenção de UTI. O que falta, segundo ele, são investimentos de implantação desses leitos.

Governo do Amazonas

O Governo do Amazonas enviou nota à imprensa explicando que continua equipando o interior com aparelhos de suporte avançado de vida, quase triplicando as Unidades de Cuidados Intermediários (UCI) durante a pandemia.

De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (Susam), os municípios, foram fortalecidos com o aumento de 49 para 114 leitos em 80% do interior. Foi destacado, ainda, que a implantação das UCIs refletiu na redução das solicitações de transferências de pacientes para a capital.

Estrutura estratégica

Para tentar salvar a vida dos doentes que não moram em Manaus, o Estado inaugurou hospitais de campanha em cidades estratégicas do interior, como Tefé. As unidades possuem capacidade para atender pacientes de baixa e média complexidade, mas casos que precisam de UTI ainda vão para Manaus.

A transferência é feita por um avião com equipamentos de UTI a bordo, o que permite a estabilização do paciente enquanto faz a viagem. No entanto, a fila para esse transporte já deixou saldo de vítimas.

Os investimentos do Governo do Estado possibilitaram melhorias no fluxo de atendimentos na capital e mais qualidade nos atendimentos das unidades de saúde do interior.

“Com as ações realizadas no sentido de levar infraestrutura para os municípios, houve melhorias no atendimento e na assistência aos pacientes. Podemos dizer que houve redução na demanda em Manaus”, avalia a diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), Rosemary Pinto.

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