Ricos conseguem auxílio emergencial do governo com maior facilidade que pobres

por Naief Queiroz

O auxílio emergencial de R$ 600 foi criado para ajudar quem perdeu renda nesta pandemia. Mas, para ter direito, a família não pode ter ninguém que receba mais do que R$ 522,50 por mês.

Apesar do critério, um terço das famílias das classes AB, com renda mensal mínima de R$ 1.780 por pessoa, solicitou o benefício e, desse total, 69% conseguiram, de acordo com pesquisa qualitativa feita pelo Instituto Locomotiva.

Já nas favelas, a média de aprovação foi menor (61%), mas o montante que precisou pedir o socorro financeiro foi duas vezes maior: 65% de pedidos, como mostra o estudo do Data Favela.

Nos aglomerados, onde 57% dos moradores perderam mais da metade da renda, esse dinheiro tem sido mais usado para comprar comida.

A resposta foi indicada como o principal destino do recurso por 95% dos entrevistados. Entre as pessoas das classes AB, a necessidade de comprar alimentos foi indicada por 2%. 

Denúncias feitas nas últimas semanas mostram que jovens de classe média, servidores aposentados e até mesmo empresários têm burlado o sistema, omitindo a renda da família na hora de preencher o cadastro da Caixa Econômica Federal.

O pesquisador da Fundação João Pinheiro (FJP) e professor de economia do Ibmec Glauber Silveira explica que, assim como acontece na declaração do Imposto de Renda, muita gente acaba omitindo informações sobre os ganhos. Na avaliação dele, faltou o governo se preparar previamente. 

“O governo já possui vários bancos de dados como Prouni, Fies e CAD Único, do Bolsa Família. Mas precisa interligar essas informações para que, num momento de crise como essa pandemia, consiga cruzar esses dados de forma rápida e eficiente, para que a ajuda chegue a quem realmente precisa, que são para as pessoas em situação de vulnerabilidade, para quem os efeitos são sempre mais abruptos”, destaca Silveira.

O empresário Luciano Hang, dono da Havan, foi cadastrado e aprovado para recebimento do auxílio emergencial. O caso veio à tona após dados do empresário terem sido vazados, mas ele diz que não recebeu o dinheiro.

O morador de rua Daniel Alves da Silva, 33, também não recebeu a segunda parcela. Cadastrado no Bolsa Família, ele sacou a primeira parte do benefício no dia 24 de abril.

“Mas a segunda, que deveria ter saído no dia 25 de maio, não foi liberada. Também não consegui o Bolsa Família”, relata Silva, que vende balas na rua, recolhe latinhas e passa as noites em um abrigo municipal. A Caixa está verificando a situação dele.

Silva é um retrato da falta de mapeamento e um exemplo de como a desorganização dos dados dificulta a ajuda para quem mais precisa.

“Não existem pesquisas que visam captar famílias mais vulneráveis. Isso é um problema crônico, que vem se arrastando há algum tempo”, professor de economia do Ibmec Felipe Leroy.

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