Autônomo com aneurisma luta por cirurgia e relata contágio de Covid-19 durante espera em hospital de Manaus

por Naief Queiroz

O autônomo Rogério Alencar Leite, de 53 anos, vive uma luta há cinco meses para conseguir uma cirurgia e melhorar o quadro da saúde. Desde quando passou mal no município de Borba, a 151 Km de Manaus, sua rotina mudou. Ele foi transferido para um hospital em Manaus e recebeu o diagnóstico de aneurisma. À espera da cirurgia desde então, dentro do hospital, Rogério pegou Covid-19 e vive agora, segundo laudo médico, com “risco iminente de morte”.

Com o agravamento da situação, a família acionou a Justiça do Amazonas, que já concedeu duas liminares a favor do paciente para que o Estado realizasse a cirurgia. Ainda assim, Rogério segue sem respostas. De acordo com a defesa do paciente, o governo foi notificado pelo Tribunal de Justiça, pelo menos, cinco vezes, durante o período.

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou ao G1 que providencia a realização do procedimento do paciente para atender a decisão judicial. “A embolização neurológica é um procedimento eletivo e enquanto aguarda a realização da intervenção cirúrgica, o paciente segue sendo assistido pela equipe médica especializada do HPS João Lúcio”, diz trecho da nota.

O paciente passou mal no dia 25 de janeiro deste ano e, desacordado, foi levado para o Hospital Municipal Vó Mundoca, em Borba. Ele sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC). No dia seguinte, o autônomo foi transferido para o Hospital Dr. João Lúcio, Zona Leste de Manaus, por ser referência em neurocirurgia. Lá, ele segue internado há cinco meses.

Laudo médico aponta risco eminente de morte — Foto: Reprodução

Laudo médico aponta risco eminente de morte — Foto: Reprodução

Preocupada com a situação de Rogério Leite, a irmã dele conseguiu contar a situação grave do irmão para um advogado. Durante todo esse período de espera, duas liminares foram concedidas, mas não houve resposta efetiva do Estado. O G1 teve acesso aos documentos.

“Entramos com uma ação judicial, que é um mandado de segurança em 19 de março. No outro dia, o desembargador plantonista concedeu liminarmente para que o estado fizesse a cirurgia. É bem claro no laudo que ele tem risco eminente de óbito, em caso de ressangramento, ou pode ter uma deterioração muito séria irreversível”, contou o advogado Raphael Cavalcante.

Ainda segundo o advogado, o estado já foi notificado cinco vezes pela justiça do Amazonas. ” [Para o estado] já foi enviado por malote digital e já fizeram a leitura. Existe um protocolo de recebido e eu tenho todo o histórico. Isso sem contar que a família já tentou entrar em contato inúmeras vezes com o hospital, e eu com a própria assessoria jurídica da Susam, mas eles não respondem”, disse.

“A situação dele é realmente vulnerável, extremamente difícil”

Paciente relata drama que vive durante cinco meses à espera de uma cirurgia

Após esperar por quase seis meses, na semana passada, o paciente chegou a passar por uma depilação para realizar a cirurgia, mas foi informado pelo próprio hospital que a atividade foi suspensa por conta das prisões de pessoas ligadas a saúde do estado durante uma operação da Polícia Federal. “Uma desculpa meio nada a ver”, segundo a defesa.

O autônomo contou que durante o tempo em que ficou internado, acabou sendo infectado pelo novo coronavírus. “Mesmo pegando, resisti até hoje”, afirmou.

“Você imagina o que se passa em quase seis meses em um hospital. Sou uma das esperas, pois são várias pessoas que também estavam há meses esperando e abandonaram a fila de espera para fazer esses procedimentos por causa da Covid-19”, disse.

Laudo médico mostra que paciente foi infectado pelo novo coronavírus no hospital e ficou em tratamento  — Foto: Arquivo pessoal

Laudo médico mostra que paciente foi infectado pelo novo coronavírus no hospital e ficou em tratamento — Foto: Arquivo pessoal

Rogério realizou um exame e a conclusão apontou que o autônomo possui “aneurisma cerebral como etiologia do sangramento em sistema nervoso central”. Em muitos casos, a aneurisma pode se romper, causando hemorragia e levando à morte.

Com novas restrições em hospitais por conta da pandemia, Rogério teve que ficar sozinho no hospital. A família dele mora em Borba. Em Manaus, ele conta com a ajuda apenas do filho que reside na região.

“Ele é quem lava minhas roupas e providencia as coisas básicas de higiene pessoal que preciso. Contato para Borba, somente por telefone. Graças a Deus que existe a internet. Para ter uma ideia, já emagreci 15 kg no hospital”, contou.

O paciente aguarda em uma fila de espera pois precisa fazer um procedimento de embolização para tratar a aneurisma e não consegue. Ele aguarda uma vaga no Hospital Universitária Francisca Mendes, em Manaus.

O laudo médico também narra que “até o momento não há previsão concreta de agendamento pelo núcleo de regulação e o retardo nesta abordagem terapêutica pode cursar com grave deterioração neurológica e risco eminente de morte em caso de ressangramento”.

Além disso, o laudo descreve que foi reiterado também pela coordenação da equipe de neurocirurgia do HPS João Lúcio que o paciente deve aguardar em regime de internação hospitalar pelo procedimento.

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