Mitomania: Mentir demais pode ser sinal de doença

por Naief Queiroz

Quem nunca contou uma mentirinha sequer na vida que atire a primeira pedra. E não precisa ficar constrangido por isso, porque todo mundo mente, não adianta negar. Para provar a teoria, uma pesquisa realizada pela Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, mostrou que, em dez minutos de conversa as pessoas costumam mentir, em média, três vezes e para completar as estatísticas dos mentirosos um outro estudo conduzido pela Universidade da Califórnia também apontou que os adultos mentem em uma a cada cinco interações. Ou seja, mesmo que você seja contra mentir para evitar magoar alguém com a verdade, os especialistas garantem que não há como  como escapar de ser pinóquio por aí às vezes. 

“Nós nascemos mentirosos, vivemos mentirosos e vamos morrer mentirosos. Você começa a mentir aos 3 meses, quando descobre que se chorar a mãe e o pai vão ficar por perto. Já a criança mente para não ser castigada ou porque os pais falam que tem que agradecer um presente mesmo se não gostar, enquanto o adolescente conta uma mentira para se mostrar superior aos outros. Já na vida adulta, temos a mentira social, que é quando falamos que o cabelo e a roupa da pessoa está bom para não gerar mal-estar e fazer a conversa fluir. A verdade é que nós vamos aprendendo a mentir, porque a mentira faz parte da sociedade”, explica o autor do livro “Não Minta para Mim! Psicologia da Mentira e Linguagem Corporal”, Paulo Sergio Camargo.PUBLICIDADE

Mas, segundo o especialista, embora sejamos todos naturalmente mentirosos e nem sejamos os únicos a mentir – alguns estudos mostram que até os macacos enganam uns aos outros para conseguir mais comida -, o mentir compulsivamente é sinal vermelho para doenças psicológicas sérias. Para ele, apesar de o transtorno não constar no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), a mitomania, ou “síndrome do Pinóquio”, é uma doença.

“Na mitomania, a pessoa começa a mentir compulsivamente por tudo e por qualquer motivo, e ela está ligada a fatores comportamentais, como a baixa autoestima. A pessoa precisa superar o sentimento de inferioridade e compensa na mentira. Por isso, adolescentes são mais propensos a desenvolverem isso, mas isso pode vir da infância quando a criança vê que com a mentira pode se obter vantagens ou não ser punido. Para o mitômano, quando ele mente, libera a dopamina, que é o hormônio do prazer. Então, ele não consegue controlar a mentira, porque o cérebro fica viciado na sensação de bem-estar e adrenalina e sempre quer mais. É o mesmo que acontece em pessoas viciadas em drogas”, exemplifica. 

Mas o diagnóstico não é fácil assim. O ato de mentir não quer dizer que se tenha uma patologia ou uma doença. Segundo o professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG Victor Godoy, vários distúrbios psiquiátricos têm a mentira compulsiva como sintoma, como os pacientes com transtorno de personalidade limítrofe – que é quando as pessoas sofrem com intensa oscilação de emoções e mentem para esconder as consequências dos atos –, bipolaridade e sociopatia. Pessoas com síndrome de Munchausen também podem mentir e simular sintomas de doenças graves para obter cuidados médicos. 

“A compulsão por mentir é muito diferente da mentira social, porque a mentira ligada a mitomania ou a psicopatologias tem a ver com a personalidade do indíviduo. Ela costuma ficar insensível às consequências da mentira. Nesses casos não devemos encarar que a pessoa minta ou faça isso de má-fé, porque isso faz parte de uma característica de uma personalidade disfuncional, ela não tem a intenção de provocar o mal. É importante diferenciar que todos nós podemos mentir, mas a mentira comum não necessariamente faz parte de uma característica abrangente de personalidade da pessoa. Cada transtorno tem suas peculiaridades, mas na mitomania temos a questão de ambientes aversivos e pais controladores, por exemplo”, explica Godoy.

De onde vem isso?

Para alguns especialistas, a mitomania não tem cura. Normalmente são as pessoas ao redor do mitomaníaco que detectam a compulsão. Apesar de não ter uma única causa, alguns estudiosos defendem que os mentirosos têm alterações físicas. Um estudo feito pela Universidade do Sul da Califórnia mostrou que os mentirosos tinham 26% mais massa branca nas regiões pré-frontais do que as pessoas “normais”. Essa região, segundo os pesquisadores, é a área do cérebro responsável pelas as tomadas de decisão. 

“Quando mentimos, nosso corpo fica assimétrico, piscamos mais, uma sobrancelha sobe, um ombro fica mais alto que o outro, até a língua colocamos para a fora, porque a garganta fica seca e precisa molhar os lábios com a sensação de adrenalina causada pela ansiedade. Todos esses sinais não são por causa da mentira em si, mas são por causa do estresse e desconforto causado pela mentira. Quando alguém confronta a mentira, por exemplo, essa pessoa costuma repetir a pergunta para ganhar tempo para criar outra história”, afirma o especialista em linguagem corporal Paulo Sergio Camargo.

Apesar de atender há anos e estar acostumado com diversos casos, o psicólogo Rodrigo Tavares se surpreendeu há alguns anos com o caso de um paciente. Em um atendimento, um homem relatou ter sofrido um acidente com a família e ter sido o único sobrevivente. Na sessão, o homem chorava contando a história e falava que guardava os destroços do carro na garagem para se culpar todos os dias. Mas com algumas sessões, o psicólogo viu que a história não era bem essa. “Com o tempo fui vendo que era tudo mentira. Ele nunca sequer tinha se casado e tido uma filha. No caso dele, as mentiras eram para ele encontrar um lugar na sociedade, ele se colocava no lugar de vítima, para ser cuidado. Eram várias mentiras, o tempo todo. O tratamento de um compulsão sempre é muito difícil, outros psicólogos que o atenderam antes tentaram fazer com que ele escrevesse as mentiras e transformasse em ficção para que o mentir ficasse só ali no papel, mas depois eu mudei de emprego e não sei se ele conseguiu se curar, mas é possível sim tratar a mitomania e outras compulsões”, conta. 

Nunca se mentiu tanto
A grande culpada das mentiras atualmente, segundo os especialistas, tem nome e sobrenome: redes sociais. Uma pesquisa divulgada em 2019 pelo site Booking.com revelou que 14% dos brasileiros já postaram fotos de hotéis luxuosos fingindo que estiveram lá e 18% das pessoas já publicaram um clique da viagem anterior como se fosse atual. Mas, calma, tem como piorar: 10% dos usuários já fingiram um passeio sendo que, na verdade, estavam em casa.  

E já que a mentira está na internet, uma outra pesquisa realizada pela Universidade de Massachusetts mostrou que quando as pessoas se comunicam via mensagem de textos, elas mentem três vezes mais do que quando conversam pessoalmente. Já quando a comunicação é por e-mail, a probabilidade de mentir é cinco vezes maior. 

“As ferramentas virtuais se tornam mais uma possibilidade da manifestação da mitomania, uma vez que facilitam a ‘venda’ de uma imagem que não é compatível com a realidade. Uma pessoa pode registrar fotos sorrindo, onde muitas das vezes o sorriso só acontece na hora do clique. Mas o mitômano vai além disso, pode fazer check-in em lugar que nunca foi ou fazer montagens em fotos contando detalhes de uma viagem que não aconteceu e com pessoas que nunca conheceu”, explica o psicólogo Luciano Pinheiro.

Para o escritor Paulo Sérgio, o grande problema da mentira na era digital é a velocidade de propagação. Segundo ele, o pior exemplo que temos disso são as fake news. “É um comportamento da sociedade de só procurar saber e ver o que interessa, não importa se é mentira. Por isso, as fake news estão ligadas com o comportamento de mentir”, pontua.

Mentirosos famoso 

Marcelo Nascimento da Rocha ganhou fama em 2001 quando se passou pelo empresário Henrique Constantino, filho do dono da companhia aérea Gol. À custa da mentira, Marcelo namorou modelos e atrizes globais, hospedou-se em hotéis de luxo, pilotou jatos e helicópteros, gastou mais de R$ 100 mil em comidas e bebidas à custa de bajuladores e até deu entrevistas ao apresentador Amaury Jr. antes de ser preso no Rio de Janeiro. Hoje, Marcelo vive em Cuiabá, é dono de uma empresa de eventos e vive em dando palestras pelo país sobre o poder da persuasão. 

Quem revelou sofrer por mentir demais foi atriz Deborah Secco. Em entrevista para o canal do YouTube da modelo Giovanna Ewbank, a atriz revelou que não conseguia mais controlar as mentiras. “Era viciada, louca e doente. Eu não tinha nem pra que mentir, mas eu mentia. Se você perguntasse o que eu comi hoje, eu ia mentir, encarnava vários personagens. É uma coisa louca. Nunca falava a verdade”. 

Minientrevista
Luciano Pinheiro
Psicólogo especialista em saúde mental e terapia cognitivo-comportamental

O que é mitomania? Pessoas que não mentem patologicamente contam mentiras esporadicamente, até mesmo para ter uma aceitação social, não serem expostas e evitarem constrangimentos. A mitomania é diferente, é o mentir patológico, uma pessoa que mente compulsivamente, tendo consciência de que suas histórias não são verdadeiras, mas podem conter fatores da realidade. As mentiras geralmente o colocam como herói ou vilão da história, mentem sem motivo aparente e sem necessidade, dando detalhes ou fazendo versões diferentes da mesma história. 

A patologia se torna mais perceptível em alguma fase da vida? Existem condições que estimulam o exercício da mentira? Na infância a criança fala algumas mentiras, mas não de forma patológica, mas como uma forma de organizar e extravasar sua imaginação. Porém, pode acontecer que mesmo na infância, a criança aprenda a ter vantagens psicológicas com as mentiras, como manter uma aparência para os pais, ter a atenção dos outros, ser aceita e querida por perto. Um diálogo aberto, com regras claramente definidas, sem punições exageradas, são fatores de proteção para a prevenção da mitomania.

Como é feito o tratamento da mitomania? E como lidar com pessoas mitômanas? O diagnóstico é feito principalmente com quem convive com o mitômano, pois conhecem bem a realidade da pessoa e sabem que o que está falando é mentira. O tratamento é feito no acolhimento respeitoso, buscando identificar e modificar crenças que o levam a mentir. Trabalha-se o fortalecimento da autoestima e tratamento de sintomas depressivos e ansiosos. Caso necessário, é recomendado um acompanhamento psiquiátrico conjuntamente para o devido apoio medicamentoso. O importante é acolher essa pessoa com respeito, pois não faz isso por mal, foi uma maneira que ela encontrou de lidar com situações estressantes e sentimentos desagradáveis. Deve-se evitar o confronto contínuo, e sim se colocando à disposição para ajudá-la quando quiser. Poucos mitômanos buscam ajuda, pois acreditam que esse comportamento não faz mal. Pelo contrário, a pessoa tem ganhos secundários ao continuar mentindo.

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