Após flagra de dinheiro entre as nádegas, aliados pedem a senador que se afaste de vice-liderança de Bolsonaro

por Naief Queiroz

No dia seguinte à operação contra desvio de recursos públicos que atingiu um de seus vice-líderes no Senado, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) marcou distância do senador Chico Rodrigues (DEM-RR) e afirmou que seu governo combate a corrupção, não importa quem seja o suspeito.

Em paralelo, aliados de Bolsonaro no Congresso enviaram mensagens a Rodrigues, que teve dinheiro vivo apreendido entre as nádegas pela Polícia Federal na quarta-feira (14) em Roraima, pedindo que ele se afaste da vice-liderança do governo no Senado, diante de uma situação que eles julgam como insustentável.1 4

Este é Chico Rodrigues, senador flagrado pela PF com dinheiro entre as nádegas

Presidente da República, Jair Bolsonaro ao lado do Senador Chico Rodrigues (DEM-RR) durante encontro com Senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE)

Na avaliação de interlocutores ouvidos pela Folha, caso Rodrigues não tome a iniciativa de pedir sua saída da vice-liderança, não restará ao Planalto alternativa a não ser tirá-lo do posto.

“Parte da imprensa [está] me acusando de o cara [Rodrigues] ser meu amigo, [que] eu [o] coloquei como vice-líder, [que] em consequência eu não combato a corrupção. Essa operação da PF [Polícia Federal] de ontem [quarta-feira] foi em conjunto com a CGU [Controladoria-Geral da União], cujo ministro é o capitão Wagner Rosário. Essa operação foi desencadeada conjuntamente [entre] CGU e PF: ou seja, nós estamos combatendo a corrupção, não interessa quem seja a pessoa suspeita”, declarou o presidente para um grupo de apoiadores, na saída do Palácio da Alvorada.

“Essa investigação de ontem [quarta-feira] foi um exemplo típico do meu governo, que não tem corrupção no meu governo e [que] combate a corrução seja quem for”, acrescentou.

Em outra fala para marcar distanciamento do senador, Bolsonaro afirmou que se “um vereador faz algo de errado, não tenho nada com isso”.https://s.dynad.net/stack/928W5r5IndTfocT3VdUV-AB8UVlc0JbnGWyFZsei5gU.html

Ele destacou ainda que seu governo é formado por ministros, estatais e bancos públicos, para defender que o caso do senador não afeta sua administração. “Alguns acham que toda corrupção tem a ver com o governo. Não”.

“Não isso que a imprensa está falando agora que eu tenho a ver com essa corrupção, ou dizendo que meu governo faz corrupção. Se um vereador faz algo de errado, não tenho nada a ver com isso. Ou melhor, eu tenho a ver para ir para cima dele, com a Polícia Federal e, se for ocaso, com o apoio da CGU”, acrescentou.

A operação realizada em Roraima mirou desvio de recursos públicos para o enfrentamento à Covid-19 no estado. Rodrigues é um dos principais aliados de Bolsonaro no Legislativo e membro da tropa de choque do Planalto.

Parte das notas apreendidas na operação, de acordo com investigadores envolvidos no caso, estavam entre as nádegas de Rodrigues. Cerca de R$ 30 mil foram encontrados na casa do parlamentar. A informação foi divulgada pela revista Crusoé e confirmada pela Folha.

A permanência de Rodrigues na vice-liderança do governo no Senado gera forte constrangimento para Bolsonaro, disseram interlocutores.

Desde a noite de quarta, aliados passaram a disparar mensagens a Rodrigues sugerindo que ele saia da vice-liderança o quanto antes para centrar esforços na sua defesa, tanto a jurídica quanto a do seu mandato.

Segundo um aliado do governo, Rodrigues no momento não tem condições de defender nada, a não ser ele mesmo.

O coro foi engrossado pelo vice-presidente Hamilton Mourão, que defendeu a saída de Rodrigues da vice-liderança. “Eu acho que seria bom ele voluntariamente [sair], até para ele poder se defender das acusações que tem de forma mais livre”, declarou o vice na manhã desta quinta.

O senador disse, em nota publicada na quarta após a operação, que confia na Justiça e que irá provar que não tem envolvimento com qualquer ato ilícito.6 31

A trajetória de Jair Bolsonaro

Deflagrada pela PF e pela CGU, a Operação Desvid-19 tinha o objetivo de coletar informações sobre o desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares. Cada congressista tem direito a R$ 15 milhões por ano em emendas ao Orçamento da União.

Os valores eram destinados ao combate à pandemia da Covid-19 —recursos administrados pela Secretaria de Saúde de Roraima.

Foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão em Boa Vista, expedidos pelo ministro Roberto Barroso, relator da investigação no STF (Supremo Tribunal Federal). Rodrigues foi um dos alvos.

A reportagem ligou para o senador, mas não conseguiu contato. Em um comunicado que fez sobre o caso, o senador disse acreditar “na Justiça dos homens e na Justiça Divina”.

“Estou tranquilo com o fato ocorrido hoje em minha residência em Boa Vista, capital de Roraima. A Polícia Federal cumpriu sua parte em fazer buscas em uma investigação na qual meu nome foi citado”, afirmou Rodrigues.

O senador disse que teve o “lar invadido” pelos investigadores, por apenas ter feito o trabalho como parlamentar, levando recursos para o combate à Covid-19 na saúde do estado.

“Tenho um passado limpo e uma vida decente. Nunca me envolvi em escândalos de nenhum porte. Se houve processos contra minha pessoa no passado, foram provados na Justiça que sou inocente.”

“Na vida pública é assim, e, ao logo dos meus 30 anos dentro da política, conheci muita gente mal intencionada com o intuito de macular minha imagem, ainda mais em um período eleitoral conturbado, como está sendo o pleito em nossa capital.”

O parlamentar disse ainda que não trabalhou no Executivo, não é ordenador de despesas e, como legislador, faz a parte dele, “trazendo recursos para que Roraima se desenvolva”. “Que a Justiça seja feita e que, se houver algum culpado, que seja punido nos rigores da lei”, afirmou.

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