“Lula como vice de Ciro seria uma chapa imbatível”, diz João Santana

por Naief Queiroz

O consultor político e ex-marqueteiro das campanhas presidenciais vitoriosas do PT, João Santana , condenado por caixa dois no âmbito da operação Lava Jato , concedeu entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, nesta terça-feira (27), quatro anos após a sua última declaração pública. 

Em clima tumultuado , o ex-aliado petista comentou os esquemas dos quais se beneficiou, apontou Ciro Gomes (PDT) como alternativa viável na disputa eleitoral de 2022 e classificou a Lava Jato como responsável por alimentar a rede de ódio que se instalou no Brasil.

Condenação e caixa dois

Durante o programa, as câmeras da TV Cultura fizeram questão de focar na tornezeleira eletrônica utilizada por Santana, que afirmou permanecer condenado, em regime aberto. Já no início da entrevista, o marqueteiro declarou ter passado por um processo introspectivo que o levou a repensar os esquemas em que se envolveu e a se despir do vitimismo .

Ao comentar sobre a prática de caixa dois do qual se beneficiou ele chegou a comentar que havia exageros no modelo de marketing político de cifras astronômicos, que segundo ele, legitimava a prática pelos políticos e empresários.

“O caixa dois não foi apenas uma unha encravada do sistema político, o caixa-dois sempre foi a alma do sistema eleitoral brasileiro e poucos foram punidos”, disse.

“O caixa dois no Brasil era tão consentido que criou-se uma sensação de normalidade. A pior sensação de impunidade é quando há uma sensação de impunidade… Havia um universo paralelo com o caixa-dois centralizando tudo”, destacou em outro momento.

Ao ser questionado se havia necessidade de cometer as ilegalidades para gerir as campanhas, Santana argumentou que “quando você vive em um sistema de ruína moral todo mundo é cúmplice e vítima”. 

“Não era nem mais o dinheiro, a questão era você formar a ânsia de vencer e formar um cabedal de vitória que na minha geração ninguém vai vencer”, disse.

Segundo ele, a imprensa sabia da existência disseminada de caixa dois nas campanhas. Santana chegou a acusar jornalistas de se ausetarem das redações para trabalhar em campanhas, arrecadar cifras milionárias, pois, segundo ele, “era um fato cultural, político e socialmente aceito “.

Lava Jato

O marqueteiro disse que o “mérito da Lava Jato foi colocar o dedo mais forte no caixa dois”, mas avalia que, pelo escopo da operação, ” o Brasil perdeu uma oportunidade de investigar isso mais a fundo ”, ao invés de só realizar prisões.

“ A Lava Jato foi o melhor esquema de marketing polítco já feito no Brasil ”, disse João Santana. Para ele, a operação coordenada pelo Ministério Público em parceria com a Polícia Federal utilizou três correntes de comunicação política extremamente nocivas por pregarem a destruição do inimigo. Além disso, a operação teria sido “favorecida pela paixão e crítica da imprensa”.

Nessa mesma linha, ele argumenta que “ a Lava Jato querendo ou não alimentou a rede de ódio . A máquina de ódio foi alimentada”.  Ele também foi provocado sobre estimular um clima de ódio e mentira durante a campanha de 2014, quando realizou uma peça publicitária de ataque à campanha de Marina Silva em relação à autonomia do Banco Central.

“Eu faria de novo porque não é fake news é debate de ideia. É exagero de retórica”, respondeu. Ao ser comparado com as experiências do gabinete de ódio, supostamente arquitetados pela família Bolsonaro, ele contra-argumentou que não são coisas equivalentes.

“Quando você ataca no mundo da web, tão aberto, sem autor, tem pesos diferentes. Nada é justificado nesse campo da coisa obscura ”, disse.

Delação

“Fazer uma delação foi a pior experiência da minha vida. Foi uma descida ao inferna ”, disse João Santana. 

O político chegou a dizer que teve que “escolher entre a vida e a verdade” e por isso optou pela verdade ao delatar à PF os esquemas de caixa dois nas campanhas . Mas Santanas fez questão de defender: “ eu e o PT não fazíamos parte de uma máquina criminosa como o diziam ”.

Questionado sobre as motivações da delação e as acusações de traição em torno do evento, ele disparou: “Eu me sentir traidor? Eu me senti traído. Porque eu não tinha ideia do esquema tão forte e tão mal organizado por trás”.

Eleições 2022

“Se as esquerdas se unirem em torno de Ciro Gomes ele pode ser um candidato extremamente viável ”, disse João Santana. “ Lula seria o melhor perfil de vice-presidente possível. Ele como vice de Ciro seria uma chapa imbatível”, complementou.

A fala foi antecipada por uma tentiva de amenizar os ânimos do petistas com a especulação de uma aliança entre os atuais desafetos, mas o marqueteiro argumentou que “ Lula não pode nem perder e nem vencer a eleição . Se perder afunda ele e o PT e se vencer estressa o ambiente político”. 

Para João Santana, a candidatura de Ciro Gomes não é só viável como pode desbancar o bolsonarismo. “É muito mais provável que Bolsonaro perca a eleição”, declarou. O marqueteiro avalia que Bolsonaro teve uma experiência atípica pós-eleição, pois não manteve a onda de apoio conquistado, e que só mantém indíces de popularidade razoáveis por conta do auxílio emergencial.

“Bolsonaro tem um governo ruim e a comunicação não é ruim, mas ele consegue pautar”. “Um personagem como ele só pode viver de exageros e por viver de exagero se exaure “, argumentou. “A campanha de 2018 contrariou todas as lógicas da política eleitoral brasileira”, disse em outro ponto.

João Santana foi condenado pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro , quando ele ainda era juiz em Curitiba. Ao analisar a viabilidade política de quem o condenou, Santana avaliou que Moro não tem caracterísitcas para vencer e dar conta do âmbiente político.

“Ainda é prematuro fazer um julgamento. Pelo retrato inicial: ele não é do ramo . O Sérgio Moro é daquele que é melhor como pré-candidato do que como candidato. Me parece que nas eleições de 2022 não vai ter muita chance para pessoas que venham de fora do ramo”, analisou.

Retorno ao marketing político?

O marqueteiro disse não ter pespectiva de retorno para o ramo das campanhas e da consultoria política. “Não sei se eu quero voltar e voltar no perfil que eu tinha jamais. Fazer campanha no espectro de direita e de centro direita jamais”. 

Questionado se voltaria a trabalhar com o PT, Santana respondeu: “Com o PT é um relacionamento amoroso que falhou”. Ele disse ter confiança que, apesar das condenações, a sua reputação está mantida no mercado marketing político e possíveis clientes estariam dispostos a contrata-lo.

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