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“Estava safado”: Carol Nakamura “devolveu” o filho adotivo como se fosse carne estragada

A ex-bailarina do Faustão Carol Nakamura e seu marido Guilherme Leonel têm passado por uma situação delicada: o filho adotivo, Wallace, na família há três anos (enquanto aguarda concessão de guarda definitiva por um tribunal), voltou a morar com a mãe biológica.

Após receber diversas perguntas sobre a ausência da criança em posts nas redes sociais – ah, as redes sociais – Carol se manifestou: “Gostaria de pedir respeito, pois a dor do outro, nunca sabemos.”

O fato é que, no Instagram – plataforma de realidade super-aumentada do próprio cotidiano – as pessoas já não conhecem o sentido de privacidade, e qualquer situação, por mais dolorosa que seja, tem que estar sob todos os holofotes, sempre – e na maioria das vezes, é essa mesmo a intenção.

É que os intelectuais mais modernos chamam de “mercantilização do eu” essa obrigatoriedade de se partilhar todos os detalhes da própria vida íntima em troca de likes (que, nesse jogo chamado vida, transformam-se facilmente em dinheiro).

Seguindo essa lei tácita das redes, Carol explicou que a criança não gostava de seguir regras e receber educação. “Por mais que você mostre os benefícios da educação, alfabetização, ter uma família, casa, oportunidades, o que ele não tinha antes, é complicado e decepcionante (…) Wallace estava safado. Se a gente brigasse ou colocasse de castigo, ele queria ir pra casa da mãe dele”, explicou.

Carol Nakamura gostava de posar para fotos com Wallace no Instagram

O que é mais comum neste mundo do que uma criança de 12 anos rebelde? Estranho seria se não o fosse.

Uma criança entrando na puberdade é o bicho mais rebelde que você conhecerá. Estranho nessa história não é a criança escolher morar com quem o deixa mais “livre” (sem regras e mal educada), mas sim uma mãe adotiva chamar publicamente um filho de “safado”.

Imagina se toda família pudesse apenas devolver o seu filho porque ele está rebelde, ou, como diria a mãe do ano, “safado”?

É normal que uma criança de 12 anos faça escolhas erradas, porque ainda não tem condições de fazer escolha alguma. Estranho é um casal de famosos adotar uma criança e depois devolvê-la, sem resistência, porque é a vontade dela.

Mandá-la de volta para a favela, três anos depois, porque ela é “safada”, como se faz com um gato que faz xixi fora da caixinha (nem um gato, aliás, merece isso).

A criança preta não tem o direito à rebeldia pré-puberdade sem ser rejeitado pela família que a escolheu? Os Conselhos Tutelares passarão a ter que apresentar as crianças como se fossem cachorrinhos, com a ressalva de “adoção responsável”?

Isso tem uma explicação tão aterradora quanto observável: nas mesmas redes sociais da “mercantilização do eu”, famosos adotam crianças (pretas, de preferência) para ganharem projeção. Carol e Guilherme não foram os primeiros a devolverem uma criança à família biológica depois de algumas mídias postadas, há outros exemplos, como a família Poncio com o pequeno Josué.

Obscenidades dos nossos tempos: crianças como fontes inesgotáveis de likes, e não como seres humanos que precisam de afeto e um lar seguro.

Ainda mais obscena é a morosidade do sistema judiciário brasileiro (sobretudo nas varas de família), que permite que famílias adotivas tenham tempo de brincarem de casinha com órfãos da favela, e depois rejeitá-los quando descobrem que, sim, eles têm um modo diferente de viver e aprender, têm outra visão de mundo e provém de outra realidade.

Nas varas de direito penal, é melhor nem dizer: há pessoas encarceradas há anos aguardando ainda uma primeira audiência. Nosso sistema judiciário é lento, conservador e avesso a uma reforma que já não pode mais esperar.

A reforma jurídica é urgente não apenas por conta de casos como este, mas pelas milhares de pessoas – na maioria das vezes, negras – privadas de sua liberdade sem direito a julgamento, por aqueles que precisam de medicamentos e terapia que só o judiciário (por meio de liminares) pode lhes garantir.

Pessoas trans são privadas de usar seus nomes sociais e demandas jurídicas em geral são abandonadas em pilhas e mais pilhas de processos empoeirados em mesas de juízes sobrecarregados, porém felizes com seus auxílios paletó.

Anomalias de nossos tempos – como adotar uma criança e devolvê-la quando seus hormônios começarem a gritar – são abraçadas por um Judiciário que parece chancelar esse comportamento absurdo.

Graças a isso – e à irresponsabilidade dos pais do ano – a cabeça do pequeno Wallace deve estar mais caótica do que o Congresso Nacional, mas ao menos agora Carol Nakamura está na mídia outra vez.

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